quinta-feira, junho 15, 2006

M.

Conheci o M. há dois dias, num jantar de amigos comuns. Casualmente ficámos sentados perto um do outro e casualmente, também, lá fomos trocando algumas conversas casuais.
Não tivemos nenhuma daquelas conversas filosóficas que nos fazem mudar o sentido da vida, nem lançámos frases mágicas que nos ecoarão nos ouvidos para toda a eternidade... Simplesmente deixámos as cerejas fluir com as garfadas fáceis que surgiram do seu sorriso aberto.
Um dos temas de conversa foi aquilo a que poderíamos chamar o "marketing" dos nomes. O M. contou-nos que quando quis registar o seu nome na Sociedade Portuguesa de Autores com o sobrenome do meio substituído apenas pela inicial não pôde fazê-lo porque já existia um igual e, por isso, teve que adoptar como "nome artístico" o seu nome completo. Foi uma pena, disse a I., porque existem estudos que demonstram que os nomes dos Autores abreviados ficam mais facilmente no ouvido. E seguiu-se a lista: J. K. Rowling, J. R. Tolkien... e outros tantos que agora não vêm ao caso.
Logo ali, não resisti em discordar e em dizer que esses estudos só podiam valer nos Estados Unidos, onde ler mais de duas letras seguidas já é uma maçada. Em Portugal, não haveria de ser tanto assim. Além do mais, dizia eu, o nome assim dito só com uma inicial fica impessoal, descaracterizado, deixa ficar para trás parte da memória daqueles que nos trouxeram até aqui. O M. concordou comigo. E lá avançámos para outras cerejas...
...
Quando a notícia chegou hoje não sei contar quantas vezes olhei para as palavras para perceber que aquelas letras todas juntas significavam precisamente aquilo que estava ali escrito à minha frente.

O M. morreu.

Há sentimentos tão físicos que parece impossível que não existam palavras para descrevê-los...
É mais do que a dor que arde só de tentar imaginar - sem nunca lá conseguir chegar - o que possam estar a sentir aqueles que o amavam, que tinham nele o centro das suas vidas; mais do que a incredulidade de ver uma pessoa que nos acaba de entrar na vida a sair porta fora, de uma rajada; mais do que a incapacidade de perceber como é que é possível que uma pessoa que ontem estava tão bem hoje simplesmente já não esteja...
É mais do que tudo...
É a constatação tão cruelmente básica de que, ao fim e ao cabo, rodados que estejam todos os segundos, de nada nos valerão o peso dos nomes, das histórias e das memórias... na hora fatal, aos olhos da morte, não mais seremos que M.'s, F.'s ou C.'s, somados a tantos pontos de tantas outras letras que a morte continuamente carrrega...

... E todos, sem qualquer excepção, T-O-D-O-S, poderemos sê-lo daqui a precisamente um segundo!...

E isto dito assim, com a crueldade do que foi a morte do M. é assustador, sim senhor, mas é também, afinal de contas, a lição de vida mais lúcida que alguém nos pode dar: a demonstração de que nada justifica que gastemos cada um dos preciosos segundos de vida que ganhamos a carregar de negro as letras dos nomes que se cruzam connosco.
Eu, por mim, sei que vou andar os próximos dias a pensar, sempre que me cruzar com alguém: "e se amanhã, eu ou tu, formos já apenas uma letra com um ponto?"... E sorrirei com mais vontade ainda, sôfrega por descobrir, num segundo, todas as cores que as letras para lá do ponto tiverem para revelar; consciente do perigo que é adiar todos os amores!
...
Mal sabia eu, quando me despedi do M., com um verdadeiramente sincero: "foi um prazer" que, ao fim e ao cabo, aquelas cerejas sempre me ficariam a ecoar no ouvido, até à hora do meu segundo!

2 Comentários:

Blogger SGC disse...

Passei por aqui e eis a minha estupefacção ao ver q o meu blog constava dos seus links!...
Julgava-o (o(mru) um blog acrisolado...
excelente escrita e um apurado e requintado bom-gosto musical (e a música é-me vital!!!)!
Os meus Respeitos!

9:04 da manhã  
Blogger Bixu disse...

Espero que o M. esteja em Paz...de certeza! Beijos

1:55 da tarde  

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