1 de Maio
A Desintegração da Persistência da Memória
© Salvador Dali (1952)
© Salvador Dali (1952)
Le temps est un grand maître, dit-on. Le malheur est qu'il tue ses élèves.
© Hector Berlioz
© Hector Berlioz
Viro a página da agenda, suavemente, como que a saborear o momento. Seguro, numa carícia, a fita acetinada que vai percorrendo o caderno ao ritmo dos dias. Salto a folha de notas que separa um mês do outro e que deixo religiosamente em branco, ficção de pausa no escorrer das horas. E chego aqui.
Segunda-feira, 1 de Maio de 2006
Tenho pelas agendas um fascínio especial. Pelo conteúdo que trazem em si ainda antes do passar dos dias, também, não o nego. Gosto de me perder nos quadros com que a Taschen nos invade, de me revisitar no cenário de férias terminadas, de evoluir com as citações que os Missionários nos propõem, de apreender datas, acontecimentos, episódios de histórias passadas em dias futuros ... Há nessas agendas, as de dias já cheios, a segurança aconchegante de que nenhuma página ficará em branco, nenhum dia num vazio de pensar.
Mas é mais do que estético este fascínio pelas agendas...
Fascina-me a metáfora destas páginas onde o Tempo vem marcado sempre de modo igual: segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, quinta-feira, sexta-feira, sábado, domingo, segunda-feira, terça-feira... Sempre as mesmas linhas incolores, sempre o mesmo espaço em branco, margem em cujo leito poderão correr todas as palavras que ali quisermos deixar... sempre a recordar-nos que o Tempo é mesmo isso: critério da fronteira onde actua a nossa liberdade, limite onde podemos exercer ilimitadamente a nossa vontade.
Fascina-me este cheiro a esperança no virar da página a cada novo dia, convite quotidiano à reinvenção, submersão dos compromissos passados na alvura das infinitas possibilidades que nos abrem estas linhas por escrever.
Mas é mais do que estético este fascínio pelas agendas...
Fascina-me a metáfora destas páginas onde o Tempo vem marcado sempre de modo igual: segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, quinta-feira, sexta-feira, sábado, domingo, segunda-feira, terça-feira... Sempre as mesmas linhas incolores, sempre o mesmo espaço em branco, margem em cujo leito poderão correr todas as palavras que ali quisermos deixar... sempre a recordar-nos que o Tempo é mesmo isso: critério da fronteira onde actua a nossa liberdade, limite onde podemos exercer ilimitadamente a nossa vontade.
Fascina-me este cheiro a esperança no virar da página a cada novo dia, convite quotidiano à reinvenção, submersão dos compromissos passados na alvura das infinitas possibilidades que nos abrem estas linhas por escrever.
Segunda-feira, 1 de Maio de 2006
Passo os dedos suavemente pela página em branco.
Mais um mês! Mês de Maio!... Tantos significados, tantas cores e tantas linhas escrevi já eu em tantos Maios exactamente iguais a este que se estende vazio à minha frente nas páginas que agora afago.
Talvez nas minhas impressões digitais adivinhe já, a agenda, as frases, as cores, os sentidos, que ali estarão por escrever. Por isso me fascina esta agenda... et pourtant... me angustia... angústia-metáfora da ignorância dos reflexos que, a partir deste dia, guardarão de mim as suas linhas...
Mais um mês! Mês de Maio!... Tantos significados, tantas cores e tantas linhas escrevi já eu em tantos Maios exactamente iguais a este que se estende vazio à minha frente nas páginas que agora afago.
Talvez nas minhas impressões digitais adivinhe já, a agenda, as frases, as cores, os sentidos, que ali estarão por escrever. Por isso me fascina esta agenda... et pourtant... me angustia... angústia-metáfora da ignorância dos reflexos que, a partir deste dia, guardarão de mim as suas linhas...
Com que letras se escreverão as páginas dos meses
que já não são os nossos?
que já não são os nossos?


8 Comentários:
de castanhos amarelecidos, aqueles em que fomos felizes.
transparentes, aqueles em que não fomos.
Querida prima, sem dúvida, só as cores fortes sobrevivem ao virar das páginas!...
Ah, já agora, já te avisaram hoje que acreditas em Deus?... Ele está aqui, inequivocamente, em todas as tuas palavras ;-)
Um abraço grande.
Permite-me discordar e escrever que os meses são e serão sempre e tão somente Nossos, sendo que, por vezes, vamos partilhando-os ...
(e com isto me retiro - tou a ficar com um ar muito "sério" - e, a bem da verdade, faz-me rugas! ...)
querida prima, eu acho antes que Ele é que acredita em mim! :)
o comentário acima não é pretencioso. o que quis dizer é que Ele deve sentir que eu tenho algumas hipóteses - e coloca-me no caminho pessoas maravilhosas como tu!
Para além do horizonte não há agendas...
Sim, sei o que é o fascínio das agendas...
Todos os anos as procuro! E sempre procuro a ideal! A que mais me preenche (embora seja eu a ter de a preencher)!
E todos os anos, encontro uma (por vezes mais do que uma e... compro as duas, as três?, ou só uma?...) que é adequada, mas não a para-mim-perfeita!
E hoje, pergunto-me, por que só encontro a 'razoável'...? O que faltará para que seja a 'para-mim-perfeita'?
Ou simplesmente, teimo em não a encontrar?
Não sei... o que procurarei eu numa agenda?... A resolução do meu pelos-vistos-para-sempre conflito com o Tempo?... O cenário de um Teatro que não é o meu?... Que o Tempo seja meu e não só Dele?... Que efectivamente viva os dias que supostamente deverei preencher?...
... ... ...
Beijo!
p'ra mim, Lemonzinha? ...
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