Terça-feira, Abril 18, 2006

Dia do Património

Sé Velha de Coimbra

Aqui, onde estas pedras marteladas
Em forma de esconjuro e alçapão,
De estátuas e colunas disfarçadas,
A luz me prometeram com o pão;
Aqui, onde o silêncio mais profundo
Sob o passo do homem se tornou:
Nem primeiro aqui houve nem segundo
Foi Deus chamado aqui e não falou.
José Saramago, Os Poemas Possíveis, 1996.

Sé Velha de Coimbra
© Dias dos Reis

Aqui, onde estas pedras marteladas
Testemunharam já tantas das minhas vivências, repouso hoje, Dia do Património, a existência.
Património… a palavra convida ao exercício etimológico livre e fácil: pater+mónioPai Meu… meu ainda antes de ser nostrum, que a Humanidade é um Tanto demasiado vago para poder comungar comigo este prazer de o sentir só meu… propriedade privada dos Manes, mas ainda assim presente, ainda assim raiz e fundação.
Ouço-os brincar comigo em cada pedra… adivinho-lhes o quotidiano da vida, dos dias, os sussurros percorridos com os ciclos do Sol… e imagino-lhes os nomes, as feições… os batimentos cardíacos… as paixões… o móbil que os impelia no erguer de cada coluna… Represento e enterneço-me, logo ali, com os seus intentos probos, nobres, valentes, com certeza e, no entanto, tão mais efémeros que o conjunto destas pedras que lhes sobreviveram para se tornarem nossas pedras-angulares, nossos sentidos…
E, num esgar, não são já os pretéritos que estão ali, naquele átrio, naquele jardim, naquele castelo, mas são antes ecos de mim que ouço no olhar distante de um jovem futuro, que se sentará, como eu agora, num canto desta Praça a magicar existências passadas, ritmos vividos, sonhos calados…
E ajoelho-me, então, perante a tranquilidade destas pedras!... Tento ver nela o espelho da esperança de uma verticalidade intocável, parábola da possibilidade humana de resistência a todas as asperezas, perpetuação de todas as estórias que puderam testemunhar… Mas, a tentativa de Luz sai-me frustrada e não lhe resisto… sucumbo perante a crueldade de tamanha placidez, sem conseguir perceber como podem estas pedras ficar inteiras, iguais, indiferentes a tantos terramotos do Sentir já ali experienciados… como poderão os olhos do jovem futuro ver exactamente as mesmas pedras, os mesmos lugares que vejo agora, se tudo, o Mundo inteiro de ilusões que com estas mesmas pedras construí, ruiu sem piedade… sem compaixão? Como podem ser as mesmas as pedras, ficar igual o lugar, se
Foi Deus chamado aqui e não falou?

1 Comentários:

Blogger [m.m. botelho] disse...

As pedras ficam inteiras e silenciosas, mas jamais indiferentes aos terramotos do Sentir já ali experienciados. Cada pedra daquela Sé, daquele chão, daquela cidade, guarda em si, mas só para si, a memória de todos os momentos ali vividos... mas só os sabe quem os viveu.

9:28 PM  

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