domingo, junho 25, 2006

Condição humana

Harriet
A angústia de não ser Harriet (1830-2006).

quinta-feira, junho 15, 2006

M.

Conheci o M. há dois dias, num jantar de amigos comuns. Casualmente ficámos sentados perto um do outro e casualmente, também, lá fomos trocando algumas conversas casuais.
Não tivemos nenhuma daquelas conversas filosóficas que nos fazem mudar o sentido da vida, nem lançámos frases mágicas que nos ecoarão nos ouvidos para toda a eternidade... Simplesmente deixámos as cerejas fluir com as garfadas fáceis que surgiram do seu sorriso aberto.
Um dos temas de conversa foi aquilo a que poderíamos chamar o "marketing" dos nomes. O M. contou-nos que quando quis registar o seu nome na Sociedade Portuguesa de Autores com o sobrenome do meio substituído apenas pela inicial não pôde fazê-lo porque já existia um igual e, por isso, teve que adoptar como "nome artístico" o seu nome completo. Foi uma pena, disse a I., porque existem estudos que demonstram que os nomes dos Autores abreviados ficam mais facilmente no ouvido. E seguiu-se a lista: J. K. Rowling, J. R. Tolkien... e outros tantos que agora não vêm ao caso.
Logo ali, não resisti em discordar e em dizer que esses estudos só podiam valer nos Estados Unidos, onde ler mais de duas letras seguidas já é uma maçada. Em Portugal, não haveria de ser tanto assim. Além do mais, dizia eu, o nome assim dito só com uma inicial fica impessoal, descaracterizado, deixa ficar para trás parte da memória daqueles que nos trouxeram até aqui. O M. concordou comigo. E lá avançámos para outras cerejas...
...
Quando a notícia chegou hoje não sei contar quantas vezes olhei para as palavras para perceber que aquelas letras todas juntas significavam precisamente aquilo que estava ali escrito à minha frente.

O M. morreu.

Há sentimentos tão físicos que parece impossível que não existam palavras para descrevê-los...
É mais do que a dor que arde só de tentar imaginar - sem nunca lá conseguir chegar - o que possam estar a sentir aqueles que o amavam, que tinham nele o centro das suas vidas; mais do que a incredulidade de ver uma pessoa que nos acaba de entrar na vida a sair porta fora, de uma rajada; mais do que a incapacidade de perceber como é que é possível que uma pessoa que ontem estava tão bem hoje simplesmente já não esteja...
É mais do que tudo...
É a constatação tão cruelmente básica de que, ao fim e ao cabo, rodados que estejam todos os segundos, de nada nos valerão o peso dos nomes, das histórias e das memórias... na hora fatal, aos olhos da morte, não mais seremos que M.'s, F.'s ou C.'s, somados a tantos pontos de tantas outras letras que a morte continuamente carrrega...

... E todos, sem qualquer excepção, T-O-D-O-S, poderemos sê-lo daqui a precisamente um segundo!...

E isto dito assim, com a crueldade do que foi a morte do M. é assustador, sim senhor, mas é também, afinal de contas, a lição de vida mais lúcida que alguém nos pode dar: a demonstração de que nada justifica que gastemos cada um dos preciosos segundos de vida que ganhamos a carregar de negro as letras dos nomes que se cruzam connosco.
Eu, por mim, sei que vou andar os próximos dias a pensar, sempre que me cruzar com alguém: "e se amanhã, eu ou tu, formos já apenas uma letra com um ponto?"... E sorrirei com mais vontade ainda, sôfrega por descobrir, num segundo, todas as cores que as letras para lá do ponto tiverem para revelar; consciente do perigo que é adiar todos os amores!
...
Mal sabia eu, quando me despedi do M., com um verdadeiramente sincero: "foi um prazer" que, ao fim e ao cabo, aquelas cerejas sempre me ficariam a ecoar no ouvido, até à hora do meu segundo!

domingo, junho 04, 2006

Moral Natural


Flight Fight
Two herons fight over a fish snatched from a hole in an ice-covered lake in Pusztaszer, Hungary. Neither bird won. During the quarrel the fish fell to the ice, and another hungry heron snagged the catch.

domingo, maio 14, 2006

L'amor

L'amor
Desenho-te os lábios nas pontas dos dedos, ao ritmo lento da certeza de que o Espaço e o Tempo estão todos aqui, concentrados entre a sombra rectilínea do teu queixo e a luz clara dos teus cabelos. De olhos fechados, deixas-te guiar pelo meu afago, abrindo, à minha passagem o teu sorriso.
O teu sorriso… Prisão libertadora.
Não te amo pelo que sabes, pelo que dizes, pelo quanto encantas todos à tua volta. Pelo que dizem de ti. Pelo que sei de ti e pelo que quero ainda descobrir. Amo-te tão só por tudo quanto trazes no sorriso que me devolveste naquele dia em que o Mundo inteiro havia combinado esmorecer, descer às trevas e fechar todos os lábios.
E eu tenho tão pouco… tudo é nada… para te dar a ti. Não sei sorrir sorrisos como os teus. Não sei dizer a profundidade de palavras como as tuas. Não sei ser deslumbrante, interessante, especial e cativante como tu. Só sei gostar de ti… Toda a minha vida, toda a minha existência sempre só soube gostar… amar… tantas vezes demais…
E como te amo agora a ti, ó meu sorriso-luz, estrela maior e única de um Mundo que vive tão encantado com a noite que se afoga e confunde nela.
Gosto de te olhar nas tardes como a de hoje, sol a beijar a lua, sobre uma areia branca como nós. Nós, mão dada num passeio iluminado por esse sorriso… sempre o teu sorriso, que me devolveu ao Universo e à Vida, reflectido em mim…. Em mim que caminho lado a lado contigo, junto ao mar, olhando distraída a sombra de nós que o sol nos oferece. Sim! Reparo, sim, que é só uma a silhueta negra no chão. Mas não faz mal!... Sabem-me sempre bem as palavras de amor!

sábado, maio 13, 2006

Regras básicas de sobrevivência

Espaço ausente
© HOST (06.05.2006)
A ver se não me esqueço:

1. Não regressar aos lugares onde fomos felizes.
2. Não habitar na casa onde vivemos felizes.
3. Não ouvir as músicas que escutámos felizes.
4. Não frequentar os amigos que nos viram felizes.
...
∞. Não ser feliz!

sexta-feira, maio 12, 2006

Narciso

Narcissus
Narcissus
Galeria Nacional de Arte Antiga, Roma, 1598-99
©Caravaggio

Era tanto tão só ele que apenas se lhe conheciam dois tipos de relações amorosas:
- aquelas que estabelecia com os reflexos de si que via nos outros e
- aquelas em que se deslumbrava com o fascínio-paixão por si que adivinhava nos olhos alheios.
...
Pobre homem, que morreu sem conhecer o Amor!

terça-feira, maio 09, 2006

Rugas

Mais do que as da face, sinto um particular carinho pelas minhas rugas das mãos: cábulas de sabedoria, em mim presentes, mesmo na ausência de todos os espelhos.

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